O PEIXINHO FOLHA-DE-ÁGUA
À Sarinha,
a quem dei de presente de aniversário o Peixinho Folha-de-Água
À Sarinha,
a quem dei de presente de aniversário o Peixinho Folha-de-Água
Como os outros peixes, muito aprendeu com a água.
Nada cobiçava a ninguém, pois, em seu entender, misterioso de peixe, tudo tem o mar. Mas quando à volta da mesa enfeitada de doces marinhos, sobre toalha de areia rendada, reuniu os amigos, porque fazia três anos, e o Búzio Soprano lembrou-se de lhe trazer, de prenda, uma pérola que era uma satisfação de um desejo, não hesitou.
Queria ser músico, frequentar em Terra o Conservatório das Águas.
E assim foi. Adquiridas as primeiras noções de solfejo no refluxo das baías, partiu com o Polvo Barítono para a costa distante e, tal como ele, a quem a mesma aventura já há muito tinha seduzido, decidiu-se pelo oboé, que pode ser tocado em qualquer lado, com a ajuda do vento e raro desafina como o violino.
As aulas eram dadas (e gratuito o ensino, já se vê) nas grutas de um belo Palácio Manuelino que a Baleia Falsete, em extinção, mandara edificar, há séculos, nas imediações do Promontório Nacional.
Aí conheceu alguns músicos de carreira, como a harpista Tintureira, que dava concertos ao ar livre à quinta-feira, e um trompetista famoso chamado Peixe-Agulha, que descosia redes e era o quebra-cabeças de todos os que roubavam mão-de-obra ao mar, como a Sapateira que não tinha mãos a medir.
Mas como para ali viera aprender música por vocação, cedo se começou a sentir realizado, o Peixinho Folha-de-Água.
Ao fim, de um ano, foi convidado pelo seu professor de Alta Composição, o génio Tubarão Karajan, a estrear em público uma Sonata Para Dois (ou três, não sei bem) Pianos e não tardou que o pequeno Realizador Mac-Douglas Lagostin lhe fizesse a sua primeira encomenda para um filme de animação marítima intitulado: Anda Mouro na Costa.
Não devia, porém, deixar-se entontecer, o Peixinho Folha-de-Água, com o êxito da sua brilhante carreira de músico.
Tinha, por certo, ainda muito que aprender, e já um dia o Urso Polar (em viagem pelo Equador) lhe havia feito ver como outros músicos, antes dele, foram levados pelo Equinócio das Bilheteiras Ondulantes por falta de modéstia, pois, no que diz respeito à música, nem toda a escama que luz é oiro.
A verdadeira elevação musical nunca vinha à tona-de-água, era preciso saber ouvi-la, tanto nos dias tormentosos, como na acalmia e no marulhar distante com que a sonoridade fria das marés atraía, com arte, delicados rumores da fonte, ou andamentos de rio no interior do mar.
O Peixinho Folha-de-Água ouvia, ouvia, e nada disto o fazia desanimar, interromper estudos, pôr de parte o seu desejo de ser músico.
Por isso dava gosto passar os olhos no Livro de Areia em que escrevera ingenuamente as canções dos seus primeiros tempos, ou agora nos Pergaminhos de Sal em que lançava os complicados arabescos das suas partituras: óperas, sonatas, sonatinas, rondós.
Como o trabalho compensava e o ofício lhe proporcionava momentos de grande alegria, uma vasta onda de admiração cruzou os Oceanos e levou a sua música aos Quatro Cantos do Mar.
Embora com toda a discrição que só a arte séria rodeia, também ele, Folha-de-água, foi descobrindo o que só um músico talentoso é capaz de descobrir.
Assim, quando se apercebeu seguramente dos materiais que devia escolher para as suas composições nas cores daquela imensa vastidão dos mares a que a luz do Sol e o oiro do Luar nada recusam, não perdeu tempo.
Um músico, só chega aos calcanhares d’Aquiles, quando se mete a compor.
Que melhor inspiração, para embelezar os andamentos, lhe podia ser dada senão: pelo rumor frondoso dos ventos, pela transparência puríssima das bolhinhas de ar, pela leveza acastanhada e verde das algas, pelo ritmo das ondas, pelo repouso frio dos cristais?
Estava o curso do Peixinho Folha-de-Água já muito perto do fim, quando se deu conta de que, para melhor realização pessoal, tinha forçosamente de retirar-se para um lugar distante, onde pudesse trabalhar, criar a sua arte.
Disto mesmo se apercebeu ele lucidamente quando pelo seu olho-de-peixe assistia, uma tarde da varanda do Conservatório, a um pôr do sol como aqueles que faziam chorar a Gauguin na Ilha de Taiti.
Dessa visão inesquecível, ficou-lhe a imagem de um cisne agonizante em louvor de quem as águas foram anoitecendo, anoitecendo, o que ele logo tomou como exemplo dos perigos a que conduz o êxito fácil e, quase sempre, a carreira dos meninos-prodígio.
De todos, então achou por bem despedir-se, logo que terminou os seus estudos.
Por gratidão para com os Mestres, despedir-se-ia com uma estreia, uma estreia que, por completo, esgotaria a Sala de Concertos do Conservatório das Águas.
Entretanto, começava a pensar no lugar onde ia viver.
Quem não gostaria de ter uma casa no Atlântico Sul?
Histórias dos Pés à Cabeça, Virgílio Alberto Vieira
Nada cobiçava a ninguém, pois, em seu entender, misterioso de peixe, tudo tem o mar. Mas quando à volta da mesa enfeitada de doces marinhos, sobre toalha de areia rendada, reuniu os amigos, porque fazia três anos, e o Búzio Soprano lembrou-se de lhe trazer, de prenda, uma pérola que era uma satisfação de um desejo, não hesitou.
Queria ser músico, frequentar em Terra o Conservatório das Águas.
E assim foi. Adquiridas as primeiras noções de solfejo no refluxo das baías, partiu com o Polvo Barítono para a costa distante e, tal como ele, a quem a mesma aventura já há muito tinha seduzido, decidiu-se pelo oboé, que pode ser tocado em qualquer lado, com a ajuda do vento e raro desafina como o violino.
As aulas eram dadas (e gratuito o ensino, já se vê) nas grutas de um belo Palácio Manuelino que a Baleia Falsete, em extinção, mandara edificar, há séculos, nas imediações do Promontório Nacional.
Aí conheceu alguns músicos de carreira, como a harpista Tintureira, que dava concertos ao ar livre à quinta-feira, e um trompetista famoso chamado Peixe-Agulha, que descosia redes e era o quebra-cabeças de todos os que roubavam mão-de-obra ao mar, como a Sapateira que não tinha mãos a medir.
Mas como para ali viera aprender música por vocação, cedo se começou a sentir realizado, o Peixinho Folha-de-Água.
Ao fim, de um ano, foi convidado pelo seu professor de Alta Composição, o génio Tubarão Karajan, a estrear em público uma Sonata Para Dois (ou três, não sei bem) Pianos e não tardou que o pequeno Realizador Mac-Douglas Lagostin lhe fizesse a sua primeira encomenda para um filme de animação marítima intitulado: Anda Mouro na Costa.
Não devia, porém, deixar-se entontecer, o Peixinho Folha-de-Água, com o êxito da sua brilhante carreira de músico.
Tinha, por certo, ainda muito que aprender, e já um dia o Urso Polar (em viagem pelo Equador) lhe havia feito ver como outros músicos, antes dele, foram levados pelo Equinócio das Bilheteiras Ondulantes por falta de modéstia, pois, no que diz respeito à música, nem toda a escama que luz é oiro.
A verdadeira elevação musical nunca vinha à tona-de-água, era preciso saber ouvi-la, tanto nos dias tormentosos, como na acalmia e no marulhar distante com que a sonoridade fria das marés atraía, com arte, delicados rumores da fonte, ou andamentos de rio no interior do mar.
O Peixinho Folha-de-Água ouvia, ouvia, e nada disto o fazia desanimar, interromper estudos, pôr de parte o seu desejo de ser músico.
Por isso dava gosto passar os olhos no Livro de Areia em que escrevera ingenuamente as canções dos seus primeiros tempos, ou agora nos Pergaminhos de Sal em que lançava os complicados arabescos das suas partituras: óperas, sonatas, sonatinas, rondós.
Como o trabalho compensava e o ofício lhe proporcionava momentos de grande alegria, uma vasta onda de admiração cruzou os Oceanos e levou a sua música aos Quatro Cantos do Mar.
Embora com toda a discrição que só a arte séria rodeia, também ele, Folha-de-água, foi descobrindo o que só um músico talentoso é capaz de descobrir.
Assim, quando se apercebeu seguramente dos materiais que devia escolher para as suas composições nas cores daquela imensa vastidão dos mares a que a luz do Sol e o oiro do Luar nada recusam, não perdeu tempo.
Um músico, só chega aos calcanhares d’Aquiles, quando se mete a compor.
Que melhor inspiração, para embelezar os andamentos, lhe podia ser dada senão: pelo rumor frondoso dos ventos, pela transparência puríssima das bolhinhas de ar, pela leveza acastanhada e verde das algas, pelo ritmo das ondas, pelo repouso frio dos cristais?
Estava o curso do Peixinho Folha-de-Água já muito perto do fim, quando se deu conta de que, para melhor realização pessoal, tinha forçosamente de retirar-se para um lugar distante, onde pudesse trabalhar, criar a sua arte.
Disto mesmo se apercebeu ele lucidamente quando pelo seu olho-de-peixe assistia, uma tarde da varanda do Conservatório, a um pôr do sol como aqueles que faziam chorar a Gauguin na Ilha de Taiti.
Dessa visão inesquecível, ficou-lhe a imagem de um cisne agonizante em louvor de quem as águas foram anoitecendo, anoitecendo, o que ele logo tomou como exemplo dos perigos a que conduz o êxito fácil e, quase sempre, a carreira dos meninos-prodígio.
De todos, então achou por bem despedir-se, logo que terminou os seus estudos.
Por gratidão para com os Mestres, despedir-se-ia com uma estreia, uma estreia que, por completo, esgotaria a Sala de Concertos do Conservatório das Águas.
Entretanto, começava a pensar no lugar onde ia viver.
Quem não gostaria de ter uma casa no Atlântico Sul?
Histórias dos Pés à Cabeça, Virgílio Alberto Vieira

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